Em delação, diretor da JBS diz que pagou propina a Colombo; governador nega

Supermercado Angeloni teria sido envolvido em pagamento inocentemente. Valor total era de R$ 10 milhões, para a campanha à reeleição, de 2014

Foto: Divulgação/DN
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Bruna Borges

Criciúma

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Atualizada às 17h30min de 19 de maio de 2017

As delações premiadas de executivos da JBS à Procuradoria-Geral da República (PGR) na Operação Lava Jato também atingem Santa Catarina. O diretor da empresa, Ricardo Saud, disse aos promotores, em depoimento recente, que houve negociação para pagamento de propina de R$ 10 milhões, dinheiro que seria usado para a campanha à reeleição do governador Raimundo Colombo (PSD) em 2014. O nome do secretário da Fazenda, Antônio Gavazzoni (PSD), também foi citado. Os dois políticos catarinenses teriam se encontrado com Joesley Batista, sócio da JBS, em meados de 2013.

Veja a transcrição do depoimento de Ricardo Saud:

– O Raimundo Colombo assim como o Robson Farias são todos os dois do PSD né? O Raimundo Colombo tava disputando a reeleição ao governo de SC pelo partido do Kassab. O Kassab sempre pediu para a gente dar um apoio ao Robson e ao Raimundo Colombo. Mas nos não ……. nada do Kassab não, nós procuramos o Raimundo Colombo direto.

Eu fui procurado pelo secretário de Fazenda , o Gavazzoni, numa data oportuna porque lá nós compramos a Seara. A empresa Seara tava pra fechar, ia dispensar não sei quantos mil trabalhadores, ia ser um caos no estado de SC. Na época o secretário de Fazenda, o Gavazzoni, nos fez um apelo se podia comprar, o que tinha condições de fazer ou não… o governador Raimundo Colombo conversou muito com o Wesley também repetindo para que isso acontecesse, um diretor nosso lá também o Tomazoni, que hoje é o presidente da Seara. Então nesse contato começou ali uma amizade, uma coisa e tal… e por sorte, não foi por influência nenhuma deles, o Wesley comprou a Seara, o grupo acabou comprando a Seara, além de salvar a empresa acabou gerando muito mais empregos do que….

E com isso, criou-se uma intimidade entre o Gavazzoni e ele falou “ó a eleição tá vindo aí, nós vamos ter uma eleição agora, apertada, vamos disputar com o Paulo Bauer aí, não sabe se é o Dário Berger, quem que é eleição, nós estamos precisando de recursos”. Eu ainda falei “pô, mas vocês estão no poder, estão com a máquina na mão e ainda querem recursos, dinheiro, alguma coisa e tal…” mas aí assim mesmo nós convidamos eles para irem num jantar lá na casa do Joesley mais ou menos em junho, julho … isso é antes, é 2013 que eu to falando, nem chegou na eleição ainda.

– Na casa do Joesley em SP?

Em SP. Aí foi o Raimundo Colombo, foram alguns outros assessores que eu não lembro o nome, foi o Gavazzoni. E lá, nessa época, nós não tínhamos nada que pedir pra ele, mas por outro lado nós estávamos montando uma empresa, uma construtora na verdade, mas que trabalharia mais com concessões e nós estávamos muito interessados nessa empresa que nós fizéssemos concessões de água e esgoto dos Estados. Então lá no jantar, nós falamos “ó, nós podemos dar uma colaboração aí, podemos ajudar, tal, do grupo não temos nada, vocês nunca nos ajudaram em nada, nem nós queremos porque o Estado já tem uma parceria com a Seara, nós só queremos que continue o que fazia com a Seara quando ela era do Marfrig, não era do grupo J&F ainda”. “Nós temos interesse em comprar a Companhia de Água e Esgoto, nós estamos querendo montar essa empresa exatamente para ver se nós conseguimos com essas doações algumas facilidades na licitação, para ver se nós combinamos”. Acabei de falar isso, olhei para o Joesley, olhei para o governador, os dois balançaram a cabeça…

– Você disse que tinha o secretário de Fazenda também estava lá, o Antonio Gavazzoni?

– Isso, o secretário e vários outros assessores.

– Ele era secretário de Fazenda?

– É, continua sendo. Eles assentiram, tal, aí falou ó “então faz o seguinte, do meu lado é o Paulo Ricardo pra tratar desse assunto e ele falou ‘então do meu lado vai o Gavazzoni para tratar do assunto’ ” e nós chegamos a um número aí para a gente participar dessa licitação e ajudar a fazer o edital de licitação, a gente chegou no número de R$ 10 milhões. Então R$ 10 milhões, R$ 10 milhões e tal… e a propina foi paga da seguinte forma.. Ah e só pra você entender, esse ato de ofício só não foi pra frente porque nós não tivemos interesse.

– Vocês desistiram do negócio?

– Nós desmontamos essa empresa, nós não queríamos mais confusão, não queríamos nada, já desmontamos a empresa, então não foi pra frente. Então o que nós fizemos para ele, nós pagamos R$ 8 milhões dessa propina dissimulada em forma de pagamento no PSD nacional carimbado pra candidatura do Raimundo Colombo e R$ 2 milhões foi pago em dinheiro vivo, lá em Florianópolis mesmo. Eu não posso afirmar se foi o Gavazzoni que buscou o dinheiro ou se foi um mensageiro dele, mas o dinheiro foi entregue num supermercado também que nos ajudou, coitado, sem saber de nada, pagando em espécie, como se fosse para pagar em espécie uma nota fiscal nossa que estava vencendo, no valor de R$ 2 milhões.

– Pagou para um intermediário do…

– Gavazzoni.

– Gavazzoni…tá. Você não sabe o nome do intermediário?

– Não… Eu afirmaria talvez que foi o Gavazzoni que pegou o dinheiro, mas eu não quero afirmar porque eu não quero também…

– Mas você acha que foi?

– Eu acho que foi.

– E você tem condições de afirmar quem lá no supermercado fez a entrega?

– Tenho, sim senhor.

– Você sabe agora ou quer pesquisar para ter certeza?

– Eu sei agora.

– Então quem foi a pessoa?

– Foi… O supermercado é o Angeloni e quem entregou foi o genro do dono do Angeloni, o Guto, que a gente trata de Guto Angeloni.

– Sem saber que era algo ilícito?

– Não, não sabia não.

– Tá, mas a gente pode checar com ele a informação.

– Eu já me coloco desde hoje à disposição para fazer qualquer tarefa.

– Perfeito. Dr. Francisco, não havendo mais perguntas… (encerra)

 

Nota de Esclarecimento do governador Raimundo Colombo:

O governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, contesta com veemência as declarações feitas pelo delator da JBS sobre doações relativas à campanha eleitoral de 2014.

Ressalta que a empresa, conforme a legislação eleitoral vigente, fez doações ao diretório nacional do PSD, que repassou para a campanha do partido em SC.

A doação feita pela JBS foi dentro da legislação eleitoral de forma oficial na conta bancária do partido e está registrada na prestação de contas apresentada e aprovada pelo Tribunal Regional Eleitoral.

 

Nota de Esclarecimento do secretário de Estado da Fazenda, Antonio Gavazzoni:

Com relação à delação do executivo Ricardo Saud da JBS, o secretário de Estado da Fazenda, Antonio Gavazzoni, declara com absoluta certeza e convicção nunca ter tratado de assuntos da Casan com o referido delator ou qualquer outro executivo da JBS.

Para Gavazzoni, essa narrativa é absolutamente falsa e surpreendente. O secretário esclarece que foram efetivamente convidados para o jantar na residência do dono da JBS, em São Paulo, a que o delator se refere e que, neste jantar, a empresa ofereceu ajuda de campanha oficial, como consta das declarações eleitorais, mas não houve nenhuma conversa sobre Casan. “Eles estão mentindo e por isso nunca terão como provar. Se a companhia detinha alguma expectativa sobre esse tema, os fatos falam por si: não houve edital nem venda de nenhuma ação da Casan. Vamos nos inteirar melhor dos detalhes e em seguida tomar os procedimentos cabíveis. A verdade prevalecerá”, declarou o secretário.

A assessoria da Secretaria da Fazenda antecipou que a lei da Casan de 2011 fala em leilão na bolsa, então não teria como fazer edital.

 

Comunicado do Grupo Angeloni:

Temos histórico de relacionamento de muitos anos com a JBS, que deve ser um dos maiores fornecedores da maioria das redes de supermercados. O pagamento pelos produtos adquiridos deste fornecedor é tradicionalmente feito através de depósito bancário, mas, num determinado momento, recebemos a solicitação da JBS para que algumas duplicatas fossem pagas em carteira.

Foi então encaminhado o pedido ao Departamento Financeiro para que efetivasse os pagamentos da forma solicitada. Não houve qualquer participação direta por parte do presidente do Grupo, que apenas autorizou os pagamentos por acumular o cargo de diretor comercial da empresa.

Todos os títulos, inclusive esses em carteira, encontram-se devidamente contabilizados, quitados e as tratativas entre as partes registradas em correspondências eletrônicas.

Ficamos surpresos com as notícias veiculadas, pois, conforme afirmado por um dos delatores, jamais tivemos conhecimento do que se tratava. Estávamos considerando apenas a regularidade do procedimento comercial.

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